Silas Marner
George Eliot
Capítulo 1
Nos tempos em que as rocas zumbiam atarefadas nas casas de fazenda — e até as grandes damas, vestidas de seda e rendas de linha, tinham suas rocas de brinquedo de carvalho polido —, podiam-se ver, em paragens distantes, entre caminhos rurais ou no seio das colinas, certos homens pálidos e miúdos que, ao lado da gente robusta do campo, pareciam os remanescentes de uma raça deserdada. O cão do pastor latia furiosamente quando um desses homens de aspecto forasteiro aparecia nas terras altas, recortado em negro contra o pôr do sol precoce do inverno; pois que cão gosta de uma figura curvada sob um saco pesado? — e aqueles homens pálidos raramente saíam sem esse fardo misterioso. O próprio pastor, embora tivesse bons motivos para acreditar que o saco não continha senão fios de linho, ou então longos rolos do tecido resistente feito com aqueles fios, não estava de todo certo de que o ofício da tecelagem, por indispensável que fosse, pudesse ser exercido inteiramente sem a ajuda do Maligno. Naquele tempo remoto, a superstição se apegava facilmente a toda pessoa ou coisa que fugisse um pouco ao habitual, ou fosse apenas intermitente e ocasional, como as visitas do mascate ou do amolador. Ninguém sabia onde os homens errantes tinham seu lar ou de onde vinham; e como compreender um homem sem conhecer ao menos alguém que conhecesse seu pai e sua mãe? Para os camponeses de outrora, o mundo além de sua experiência direta era uma região de incerteza e mistério: para aqueles espíritos que nunca tinham viajado, a vida errante era uma ideia tão nebulosa quanto a vida que levavam no inverno as andorinhas que voltavam com a primavera; e mesmo quem se estabelecesse entre eles, se viesse de terras distantes, quase nunca deixava de inspirar um resto de desconfiança, suficiente para que ninguém se espantasse caso uma longa conduta inofensiva terminasse na prática de um crime; sobretudo se tivesse fama de entendido ou demonstrasse alguma habilidade num ofício manual. Toda habilidade, fosse no uso ágil daquele difícil instrumento, a língua, fosse em alguma outra arte desconhecida dos aldeões, era por si só suspeita: gente honesta, que nascera e crescera à vista de todos, em geral não tinha sabedoria nem habilidade de sobra — pelo menos não além de coisas como reconhecer os sinais do tempo; e o processo pelo qual se adquiria qualquer espécie de rapidez ou destreza era tão inteiramente oculto que essas qualidades tinham algo de feitiçaria. Foi assim que aqueles tecelões de linho dispersos — emigrantes da cidade para o campo — continuaram até o fim a ser vistos como forasteiros por seus vizinhos camponeses, e em geral adquiriram os hábitos excêntricos próprios da solidão.
Nos primeiros anos deste século, um desses tecelões de linho, chamado Silas Marner, exercia seu ofício numa casa de pedra situada entre as sebes de aveleiras perto da aldeia de Raveloe, não muito longe da borda de uma pedreira abandonada. O ruído suspeito do tear de Silas, tão diferente do trote natural e alegre da máquina de joeirar ou do ritmo mais simples do mangual, exercia sobre os meninos de Raveloe um fascínio misturado ao medo; muitas vezes eles deixavam de catar avelãs ou procurar ninhos de pássaros para espiar pela janela da casa de pedra, compensando certo temor diante do misterioso movimento do tear com uma agradável sensação de desdenhosa superioridade, que lhes vinha das zombarias que faziam de seus ruídos alternados e da postura encurvada do tecelão, como se estivesse movendo com os pés uma roda de moinho. Mas às vezes acontecia de Marner, ao parar para corrigir alguma irregularidade no fio, perceber os pequenos patifes; e, embora não gostasse de desperdiçar tempo, detestava tanto aquelas intrusões que descia do tear, abria a porta e fixava neles um olhar que sempre bastava para fazê-los fugir aterrorizados. Pois como acreditar que aqueles grandes olhos castanhos e salientes no rosto pálido de Silas Marner só enxergavam com nitidez o que estivesse bem perto, e não que seu olhar terrível fosse capaz de provocar cãibras ou raquitismo, ou de entortar a boca de qualquer menino que por acaso ficasse para trás? Talvez tivessem ouvido os pais e as mães insinuarem que Silas Marner podia curar o reumatismo das pessoas, se quisesse, e acrescentarem, em tom ainda mais sombrio, que, se a gente soubesse falar ao diabo com bastante jeito, ele talvez poupasse a despesa do médico. Estranhos ecos como esses, sobrevivências do antigo culto aos demônios, talvez ainda hoje pudessem ser captados por um ouvinte atento entre os camponeses de cabelos grisalhos; pois o espírito inculto tem dificuldade em associar as ideias de poder e benevolência. A vaga concepção de um poder que, à custa de muita persuasão, pode ser levado a se abster de causar mal é a forma que mais facilmente assume o sentimento do Invisível na mente de homens que sempre viveram premidos pelas necessidades mais elementares, e cuja vida de trabalho árduo nunca foi iluminada por uma fé religiosa fervorosa. Para eles, a dor e o infortúnio apresentam um campo de possibilidades muito mais vasto que a alegria e o prazer: sua imaginação mal faz brotar imagens que alimentem o desejo e a esperança, mas está toda tomada por lembranças que dão pasto incessante ao medo. — Consegue imaginar alguma coisa que gostaria de comer? — perguntei certa vez a um velho trabalhador que sofria da doença que o levaria à morte e recusara tudo o que a mulher lhe oferecera para comer. — Não. Nunca tive costume de comer nada além de comida comum, e isso não consigo comer — respondeu ele. A experiência não fizera nascer nele fantasias que pudessem evocar o fantasma do apetite.
E Raveloe era uma aldeia onde muitos dos antigos ecos perduravam, sem que vozes novas os abafassem. Não que fosse uma daquelas paróquias áridas situadas nos confins da civilização — povoadas de ovelhas magras e pastores esparsos: ao contrário, ficava na rica planície central daquilo que gostamos de chamar de Alegre Inglaterra, e abrigava fazendas que, falando de um ponto de vista espiritual, rendiam dízimos muito desejáveis. Mas se aninhava numa baixada abrigada e bem arborizada, a uma boa hora de viagem a cavalo de qualquer estrada de pedágio, onde nunca chegavam as vibrações da corneta da diligência nem as da opinião pública. Era uma aldeia de ares importantes, com uma bela igreja antiga e um grande cemitério no centro, e duas ou três grandes sedes de fazenda de tijolo e pedra, com pomares bem murados e cata-ventos ornamentais em forma de galo, situadas bem junto à estrada e erguendo fachadas mais imponentes que a casa paroquial, que espiava por entre as árvores do outro lado do cemitério: uma aldeia que exibia à primeira vista os cumes de sua vida social e dizia ao olhar experiente que não havia nas redondezas nenhum grande parque com casa senhorial, mas que havia em Raveloe vários homens de mando que podiam cultivar mal suas terras com todo o sossego, tirando desse mau cultivo, naqueles tempos de guerra, dinheiro suficiente para viver em folgança e festejar alegremente o Natal, Pentecostes e a Páscoa.
Fazia quinze anos que Silas Marner chegara pela primeira vez a Raveloe; era então apenas um jovem pálido, de olhos castanhos salientes e míopes, cuja aparência nada teria de estranho para pessoas de cultura e experiência medianas, mas que, aos olhos dos aldeões em cuja vizinhança viera se estabelecer, apresentava peculiaridades misteriosas, correspondentes ao caráter excepcional de seu ofício e à sua vinda de uma região desconhecida chamada “Lá para o Norte”. O mesmo se dava com seu modo de vida: não convidava ninguém a transpor a soleira de sua porta, e nunca ia passear pela aldeia para beber uma pinta no Rainbow ou conversar na oficina do carpinteiro de rodas; não procurava homem nem mulher, a não ser por exigência de seu ofício ou para se abastecer do necessário; e logo ficou claro para as moças de Raveloe que ele jamais insistiria para que alguma delas o aceitasse contra a vontade — exatamente como se as tivesse ouvido declarar que nunca se casariam com um morto que voltara à vida. Essa ideia sobre a pessoa de Marner tinha outro fundamento além de seu rosto pálido e de seus olhos sem iguais; pois Jem Rodney, o caçador de toupeiras, afirmava que certa noite, ao voltar para casa, vira Silas Marner encostado numa escada de cerca, com um saco pesado às costas, em vez de apoiar o saco na escada, como faria um homem em seu juízo; e que, ao se aproximar, notara que Marner tinha os olhos fixos como os de um morto, e falara com ele, e o sacudira, e seus membros estavam rígidos, e suas mãos agarravam o saco como se fossem de ferro; mas, justamente quando se convencera de que o tecelão estava morto, ele voltara ao normal, assim, como quem diz, num piscar de olhos, dissera “Boa noite” e fora embora. Tudo isso Jem jurava ter visto, tanto mais que fora justamente no dia em que andara caçando toupeiras nas terras do fidalgo Cass, lá embaixo, perto do velho fosso de serração. Alguns diziam que Marner devia ter tido um “ataque”, palavra que parecia explicar coisas de outro modo inacreditáveis; mas o senhor Macey, sacristão da paróquia e dado a discussões, balançava a cabeça e perguntava se alguém já ouvira falar de uma pessoa que tivesse um ataque sem cair no chão. Um ataque era um derrame, não era? E era da natureza de um derrame privar um homem de parte do uso dos membros e deixá-lo à custa da paróquia, se não tivesse filhos com quem contar. Não, não; não era derrame que deixava um homem de pé, como um cavalo entre os varais de uma carroça, e depois o deixava ir embora no tempo de dizer “Eia!”. Mas podia muito bem acontecer de a alma de um homem se soltar do corpo, saindo e entrando de novo, como um pássaro que sai do ninho e volta; e era assim que as pessoas ficavam sabidas demais, pois, naquele estado sem invólucro, iam tomar lições com quem podia lhes ensinar mais do que seus vizinhos eram capazes de aprender com os cinco sentidos e o pastor. E de onde mestre Marner tirara seu conhecimento das ervas — e dos encantamentos também, se resolvesse revelá-los? A história de Jem Rodney não era mais do que poderia esperar qualquer pessoa que tivesse visto como Marner curara Sally Oates e a fizera dormir feito um bebê, quando havia mais de dois meses o coração dela batia a ponto de lhe arrebentar o corpo, enquanto estivera sob os cuidados do médico. Poderia curar mais gente, se quisesse; mas valia a pena lhe falar com jeito, nem que fosse só para que não fizesse mal à gente.
Era em parte a esse medo vago que Marner devia a proteção contra as perseguições que suas singularidades poderiam lhe ter atraído, mas devia-a ainda mais ao fato de que, tendo morrido o velho tecelão de linho da paróquia vizinha de Tarley, seu ofício fazia dele um morador muito bem-vindo para as donas de casa mais abastadas da região, e até para os moradores mais previdentes das casas modestas, que ao fim do ano tinham seu pequeno estoque de fios. A percepção de sua utilidade teria contrabalançado qualquer repugnância ou suspeita que não encontrasse confirmação em alguma deficiência na qualidade ou na quantidade do tecido que ele tecia para eles. E os anos correram sem produzir mudança alguma nas impressões dos vizinhos a respeito de Marner, a não ser a passagem da novidade ao hábito. Ao fim de quinze anos, os homens de Raveloe diziam sobre Silas Marner exatamente as mesmas coisas que no começo: já não as diziam com tanta frequência, mas, quando diziam, acreditavam nelas com muito mais convicção. Havia apenas um acréscimo importante trazido pelos anos: mestre Marner guardara em algum lugar uma bela soma de dinheiro e poderia comprar, com tudo o que tinham, homens “mais graúdos” que ele.
Mas, enquanto a opinião a seu respeito permanecera quase estacionária, e seus hábitos cotidianos mal apresentavam alguma mudança visível, a vida interior de Marner tivera sua história e passara por uma metamorfose, como necessariamente acontece a toda natureza ardente que tenha fugido para a solidão ou sido condenada a ela. Antes de chegar a Raveloe, sua vida fora cheia do movimento, da atividade intelectual e da convivência íntima que, naquele tempo como hoje, caracterizavam a vida de um artesão desde cedo integrado a uma seita religiosa fechada, onde o mais pobre dos leigos tem a possibilidade de se distinguir pelo dom da palavra e, no mínimo, o peso de um voto silencioso no governo de sua comunidade. Marner era muito estimado naquele pequeno mundo oculto, que se designava como a igreja reunida em Lantern Yard; era tido como um jovem de vida exemplar e fé ardente; e um interesse particular se concentrara nele desde que, numa reunião de oração, caíra num misterioso estado de rigidez e suspensão da consciência que durara uma hora ou mais e fora confundido com a morte. Buscar uma explicação médica para esse fenômeno teria sido, tanto para o próprio Silas como para seu ministro e os demais membros da congregação, furtar-se deliberadamente ao significado espiritual que nele pudesse haver. Silas era evidentemente um irmão escolhido para uma provação singular; e, embora a ausência de qualquer visão espiritual durante seu transe físico desanimasse os esforços para interpretar essa provação, tanto ele como os outros acreditavam que seus efeitos se manifestavam num acréscimo de luz e fervor. Um homem menos verdadeiro poderia ter cedido à tentação de fabricar mais tarde uma visão, apresentada como uma lembrança que ressurgia; um homem menos lúcido poderia ter acreditado nessa criação; mas Silas era lúcido e honesto, embora, como acontece com muitos homens honestos e fervorosos, a instrução não tivesse aberto canais para seu sentimento do mistério, que assim se espalhava pelo caminho próprio da investigação e do conhecimento. Herdara da mãe algum conhecimento das ervas medicinais e de seu preparo — um pequeno cabedal de sabedoria que ela lhe transmitira como um legado solene —, mas nos últimos anos vinha duvidando de que fosse lícito aplicar esse conhecimento, por acreditar que as ervas não podiam ter eficácia sem a oração e que a oração podia bastar sem as ervas; de modo que o prazer herdado de vagar pelos campos à procura de dedaleira, dente-de-leão e tussilagem começava a lhe parecer uma tentação.
Entre os membros de sua igreja havia um jovem, um pouco mais velho que ele, com quem mantinha havia muito uma amizade tão estreita que os irmãos de Lantern Yard costumavam chamá-los de Davi e Jônatas. O nome verdadeiro do amigo era William Dane, e também ele era tido como um exemplo luminoso de piedade juvenil, embora um tanto inclinado a tratar com severidade excessiva os irmãos mais fracos e a se deixar deslumbrar pela própria luz, a ponto de se julgar mais sábio que seus mestres. Mas, quaisquer que fossem os defeitos que os outros enxergassem em William, para o amigo ele era irrepreensível; pois Marner tinha uma dessas naturezas impressionáveis e inseguras que, numa idade sem experiência, admiram o tom imperioso e buscam apoio em quem as contradiz. A expressão de simplicidade confiante no rosto de Marner, acentuada por aquele ar de quem nada observa em particular, por aquele olhar indefeso de cervo próprio dos olhos grandes e salientes, contrastava vivamente com a satisfação consigo mesmo e o triunfo íntimo reprimido que se entreviam nos olhos estreitos e oblíquos e nos lábios cerrados de William Dane. Um dos assuntos mais frequentes nas conversas dos dois amigos era a Certeza da salvação: Silas confessava que nunca conseguia ir além de uma esperança mesclada de medo, e ouvia com um misto de assombro e anseio quando William declarava possuir uma certeza inabalável desde que, no tempo de sua conversão, sonhara que via as palavras “vocação e eleição firmes”, sozinhas numa página branca da Bíblia aberta. Colóquios assim já ocuparam muitos pares de tecelões de rosto pálido, cujas almas sem cultivo eram como jovens criaturas aladas, esvoaçando abandonadas no crepúsculo.
A Silas, que de nada suspeitava, parecera que a amizade não esfriara em nada, nem mesmo quando ele formara outro vínculo, de natureza mais íntima. Havia alguns meses estava noivo de uma jovem criada, e só esperavam um pequeno aumento nas economias de ambos para se casar; e era uma grande alegria para ele que Sarah não se opusesse à presença ocasional de William em seus encontros de domingo. Foi nessa altura de sua história que Silas sofreu o ataque de catalepsia durante a reunião de oração; e, entre as várias perguntas e manifestações de interesse que os outros membros lhe dirigiram, só a insinuação de William destoou da simpatia geral por um irmão assim assinalado para desígnios especiais. Observou que, a seu ver, aquele transe parecia mais uma visitação de Satanás que uma prova do favor divino, e exortou o amigo a se certificar de que não escondia nenhuma coisa maldita dentro da alma. Silas, que considerava seu dever aceitar censuras e admoestações como um serviço fraterno, não sentiu ressentimento, apenas dor, diante das dúvidas do amigo a seu respeito; e a isso logo se somou certa inquietação, ao perceber que o comportamento de Sarah com ele começava a apresentar uma estranha oscilação entre o esforço de demonstrar mais afeto e sinais involuntários de retraimento e aversão. Perguntou-lhe se queria romper o noivado, mas ela negou: a igreja sabia do compromisso entre ambos, que fora reconhecido nas reuniões de oração; não se podia rompê-lo sem uma investigação rigorosa, e Sarah não podia apresentar motivo algum que a comunidade julgasse aceitável. Por essa época, o diácono mais velho adoeceu gravemente e, sendo viúvo e sem filhos, era cuidado dia e noite por alguns dos irmãos ou irmãs mais jovens. Silas frequentemente se revezava com William na vigília noturna, um rendendo o outro às duas da madrugada. O velho, contrariando as expectativas, parecia estar se recuperando quando, certa noite, Silas, sentado à sua cabeceira, percebeu que sua respiração, habitualmente audível, havia cessado. A vela já ardia fraca, e ele precisou erguê-la para ver nitidamente o rosto do doente. Ao examiná-lo, convenceu-se de que o diácono estava morto — morto havia algum tempo, pois os membros estavam rígidos. Silas se perguntou se teria adormecido e olhou o relógio: já eram quatro da madrugada. Como podia William não ter vindo? Muito aflito, saiu em busca de ajuda, e logo se reuniram na casa vários amigos, entre eles o ministro, enquanto Silas ia trabalhar, desejando ter encontrado William para saber o motivo de sua ausência. Mas às seis, quando pensava em ir procurar o amigo, William chegou, acompanhado do ministro. Vinham convocá-lo a comparecer em Lantern Yard, para se reunir ali com os membros da igreja; e, à sua pergunta sobre o motivo da convocação, a única resposta foi “Você saberá”. Nada mais se disse até que Silas estivesse sentado na sacristia, diante do ministro, com os olhos daqueles que para ele representavam o povo de Deus solenemente fixos nele. Então o ministro tirou um canivete do bolso, mostrou-o a Silas e perguntou se ele sabia onde o havia deixado. Silas disse que não sabia de tê-lo deixado em lugar algum fora do próprio bolso — mas tremia diante daquele estranho interrogatório. Foi então exortado a não esconder seu pecado, mas confessar e se arrepender. O canivete fora encontrado no móvel junto à cama do diácono falecido — no lugar onde estivera o saquinho com o dinheiro da igreja, que o próprio ministro vira na véspera. Alguma mão havia tirado o saquinho dali; e de quem poderia ser essa mão, senão do homem a quem pertencia o canivete? Por algum tempo Silas ficou mudo de espanto. — Deus provará minha inocência. Não sei nada sobre o canivete estar lá, nem sobre o dinheiro ter sumido. Revistem-me e revistem minha casa; não encontrarão nada além de três libras e cinco xelins das minhas próprias economias, que William Dane sabe que possuo há seis meses — disse por fim. Ao ouvir isso, William gemeu, mas o ministro disse: — As provas pesam contra você, irmão Marner. O dinheiro foi levado na noite passada, e ninguém esteve com nosso irmão falecido além de você, pois William Dane nos declara que um mal súbito o impediu de vir assumir a vigília como de costume, e você mesmo disse que William não viera; além disso, você descuidou do corpo do falecido.
— Devo ter dormido — disse Silas. Então, depois de uma pausa, acrescentou: — Ou devo ter tido outra visitação, como aquela que vocês todos viram acontecer comigo, de modo que o ladrão deve ter entrado e saído enquanto eu não estava no corpo, mas fora do corpo. Mas torno a dizer: revistem-me e revistem minha casa, pois não estive em nenhum outro lugar.
A busca foi feita e terminou — com William Dane encontrando o conhecido saquinho, vazio, enfiado atrás da cômoda no quarto de Silas! William então exortou o amigo a confessar e não esconder mais seu pecado. Silas lançou-lhe um olhar de aguda censura e disse: — William, nesses nove anos em que temos andado juntos, você alguma vez me viu mentir? Mas Deus provará minha inocência.
— Irmão — disse William —, como hei de saber o que você pode ter feito nas câmaras secretas do seu coração para dar a Satanás vantagem sobre você?
Silas continuava a olhar para o amigo. De repente, seu rosto corou intensamente, e ele estava prestes a falar com ímpeto quando pareceu outra vez contido por algum abalo interior, que lhe apagou o rubor e o fez tremer. Mas por fim falou com voz fraca, olhando para William.
— Agora me lembro — o canivete não estava no meu bolso.
— Não sei do que você está falando — disse William. As outras pessoas presentes, porém, começaram a perguntar onde estaria, nesse caso, o canivete, mas Silas não quis dar mais explicações; disse apenas: — Estou muito abalado; não consigo dizer nada. Deus provará minha inocência.
Ao voltarem à sacristia, tornaram a deliberar. Qualquer recurso a medidas judiciais para descobrir o culpado contrariava os princípios da igreja de Lantern Yard, segundo os quais os cristãos eram proibidos de mover processos, ainda que o caso envolvesse menos escândalo para a comunidade. Mas os membros tinham o dever de tomar outras medidas para descobrir a verdade, e decidiram orar e fazer um sorteio. Tal decisão só pode surpreender quem desconhece aquela obscura vida religiosa que tem seguido seu curso nas vielas de nossas cidades. Silas se ajoelhou com os irmãos, confiando em que sua inocência seria confirmada por uma intervenção divina imediata, mas sentindo que, mesmo assim, lhe restariam dor e luto — que sua confiança nos homens fora cruelmente ferida. O sorteio declarou que Silas Marner era culpado. Suspenderam solenemente sua condição de membro da igreja e exigiram que restituísse o dinheiro roubado: só mediante a confissão, como sinal de arrependimento, poderia ser acolhido mais uma vez no redil da igreja. Marner ouviu em silêncio. Por fim, quando todos se levantaram para sair, dirigiu-se a William Dane e disse, com a voz trêmula de agitação:
— A última vez que me lembro de ter usado meu canivete foi quando o tirei para cortar uma correia para você. Não me lembro de tê-lo guardado de novo no bolso. Você roubou o dinheiro e teceu uma trama para pôr em mim a culpa pelo pecado. Mas você pode prosperar, apesar disso tudo: não há um Deus justo que governe a terra com justiça, e sim um Deus da mentira, que dá testemunho contra o inocente.
Todos estremeceram diante dessa blasfêmia.
— Deixo aos nossos irmãos julgar se esta é ou não a voz de Satanás — disse William com mansidão. — Nada posso fazer senão orar por você, Silas.
O pobre Marner saiu dali com aquele desespero na alma — aquele abalo na confiança em Deus e nos homens que, para uma natureza amorosa, beira a loucura. Na amargura de seu espírito ferido, disse a si mesmo: “Ela também me rejeitará.” E pensou que, se ela não acreditasse no testemunho contra ele, toda a fé dela teria de sofrer o mesmo abalo que a sua. Para quem está habituado a refletir sobre as formas em que se encarnou seu sentimento religioso, é difícil penetrar naquele estado de espírito simples e sem instrução em que forma e sentimento nunca foram separados por um ato de reflexão. Tendemos a achar inevitável que um homem na situação de Marner começasse a questionar a validade de recorrer ao juízo divino por meio de um sorteio; mas, para ele, isso teria sido um esforço de pensamento independente como jamais conhecera; e teria de fazer esse esforço num momento em que todas as suas energias se haviam convertido na angústia de uma fé desiludida. Se há um anjo que registra as dores dos homens tanto quanto seus pecados, ele sabe quantas e quão profundas são as dores que nascem de ideias falsas pelas quais homem algum tem culpa.
Marner voltou para casa e passou um dia inteiro sentado a sós, aturdido pelo desespero, sem qualquer impulso de procurar Sarah e tentar convencê-la de sua inocência. No segundo dia, buscou refúgio da descrença que o entorpecia sentando-se ao tear e trabalhando como de costume; e não se haviam passado muitas horas quando o ministro e um dos diáconos vieram lhe trazer o recado de Sarah, dizendo que ela dava por encerrado o noivado. Silas recebeu o recado sem dizer palavra e depois se voltou para o tear, afastando-se dos mensageiros, para tornar a trabalhar. Pouco mais de um mês depois, Sarah se casou com William Dane; e não muito tempo depois os irmãos de Lantern Yard souberam que Silas Marner havia partido da cidade.




