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Capa do livro “Os trinta e nove degraus”, de John Buchan

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Os trinta e nove degraus

De John Buchan

Clássico em domínio público de John Buchan · Nova tradução feita pela NovelSpell

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Os trinta e nove degraus

John Buchan

Capítulo 1: O homem que morreu

Voltei da City por volta das três da tarde daquele dia de maio, bastante desgostoso com a vida. Estava havia três meses na velha pátria e já estava farto dela. Se alguém me tivesse dito, um ano antes, que eu chegaria a me sentir assim, eu teria rido dele; mas o fato era esse. O tempo me azedava o humor, a conversa do inglês comum me enjoava. Não conseguia me exercitar o suficiente, e as diversões de Londres eram tão insossas quanto água com gás deixada ao sol. “Richard Hannay”, eu repetia para mim mesmo, “você se enfiou no buraco errado, meu amigo, e é melhor sair daí.”

Eu mordia os lábios ao pensar nos planos que vinha fazendo naqueles últimos anos em Bulawayo. Tinha feito meu pé de meia — não dos grandes, mas suficiente para mim — e imaginara todo tipo de maneira de me divertir. Meu pai me levara da Escócia aos seis anos, e desde então eu nunca voltara à minha terra; por isso a Inglaterra era, para mim, algo como As mil e uma noites, e eu contava ficar ali pelo resto dos meus dias.

Mas me decepcionei desde o começo. Em cerca de uma semana, cansei de visitar pontos turísticos e, em menos de um mês, já estava farto de restaurantes, teatros e corridas de cavalos. Não tinha um amigo de verdade com quem sair, o que provavelmente explica a situação. Muita gente me convidava para suas casas, mas ninguém parecia muito interessado em mim. Faziam uma ou duas perguntas sobre a África do Sul e logo passavam aos próprios assuntos. Uma porção de senhoras imperialistas me convidava para tomar chá e conhecer professores da Nova Zelândia e editores de Vancouver, e aquilo era o mais desolador de tudo. Ali estava eu, aos trinta e sete anos, forte e em perfeita saúde, com dinheiro suficiente para me divertir, me acabando de bocejar o dia inteiro. Já estava quase decidido a ir embora e voltar ao velde, pois eu era o homem mais entediado do Reino Unido.

Naquela tarde, eu andara amolando meus corretores com questões de investimentos, para dar à cabeça alguma ocupação, e, a caminho de casa, entrei no meu clube — uma espécie de espelunca que aceitava coloniais como sócios. Tomei um copo bem servido e li os jornais da tarde. Estavam cheios da confusão no Oriente Próximo, e havia um artigo sobre Karolides, o primeiro-ministro grego. Eu simpatizava com o sujeito. Pelo que se dizia, parecia ser o único homem de peso naquilo tudo; além disso, jogava limpo, coisa que não se podia dizer da maioria dos outros. Pelo que entendi, ele era profundamente odiado em Berlim e Viena, mas nós continuaríamos a apoiá-lo, e um jornal dizia que ele era a única barreira entre a Europa e o Armagedom. Lembro que me perguntei se conseguiria um emprego por aquelas bandas. A Albânia me pareceu o tipo de lugar capaz de fazer um homem parar de bocejar.

Por volta das seis, fui para casa, troquei de roupa, jantei no Café Royal e entrei num teatro de variedades. Era um espetáculo idiota, só mulheres aos saltos e homens com cara de macaco, e não fiquei muito tempo. A noite estava bonita e límpida quando voltei a pé para o apartamento que alugara perto de Portland Place. A multidão passava por mim em ondas pelas calçadas, atarefada e tagarela, e eu invejava aquelas pessoas por terem o que fazer. Aquelas balconistas, aqueles escriturários, janotas e policiais tinham algum interesse na vida que os fazia seguir em frente. Dei meia coroa a um mendigo porque o vi bocejar; era um companheiro de infortúnio. Em Oxford Circus, ergui os olhos para o céu de primavera e fiz uma promessa. Daria à velha pátria mais um dia para me arranjar uma ocupação; se nada acontecesse, tomaria o próximo navio para o Cabo.

Meu apartamento ficava no primeiro andar de um prédio novo atrás de Langham Place. Havia uma escada de uso comum, com um porteiro e um ascensorista na entrada, mas não havia restaurante nem nada parecido, e cada apartamento era inteiramente separado dos outros. Detesto criados morando em casa, por isso tinha um homem que vinha cuidar de mim durante o dia. Chegava todas as manhãs antes das oito e costumava ir embora às sete, pois eu nunca jantava em casa.

Estava enfiando a chave na fechadura quando percebi um homem ao meu lado. Não o vira se aproximar, e a aparição súbita me fez estremecer. Era um homem esguio, de barba castanha curta e olhinhos azuis e penetrantes. Reconheci nele o morador de um apartamento do último andar, com quem eu já trocara algumas palavras na escada.

— Posso falar com o senhor? — perguntou. — Posso entrar um instante? — Fazia um esforço para firmar a voz, e sua mão me agarrava o braço.

Abri a porta e fiz sinal para que entrasse. Mal cruzou a soleira, correu para o cômodo dos fundos, onde eu costumava fumar e escrever cartas. Depois voltou correndo.

— A porta está trancada? — perguntou, aflito, e ele mesmo passou a corrente.

— Sinto muito — disse, num tom humilde. — É um abuso e tanto, mas o senhor me pareceu o tipo de homem capaz de compreender. Pensei no senhor a semana toda, quando as coisas começaram a se complicar. Escute, pode me fazer um favor?

— Vou ouvi-lo — respondi. — É só o que prometo. — As esquisitices daquele homenzinho nervoso estavam começando a me inquietar.

Havia uma bandeja de bebidas numa mesa ao lado dele, e ele se serviu de uma dose forte de uísque com água com gás. Esvaziou o copo em três goles e o trincou ao pousá-lo.

— Perdão — disse. — Estou meio abalado esta noite. Acontece que, neste momento, estou morto.

Sentei numa poltrona e acendi o cachimbo.

— E qual é a sensação? — perguntei. Tinha quase certeza de estar lidando com um louco.

Um sorriso passou por seu rosto abatido. — Não estou louco — ainda. Escute, senhor, venho observando o senhor e acho que é um sujeito de sangue-frio. Acho também que é um homem honesto e não tem medo de uma jogada ousada. Vou lhe fazer uma confidência. Preciso de ajuda como homem nenhum jamais precisou, e quero saber se posso contar com o senhor.

— Conte sua história — respondi —, e eu lhe digo.

Ele pareceu se preparar para um grande esforço e então começou a mais esquisita das histórias. A princípio, não consegui entender, e tive de interrompê-lo para fazer perguntas. Mas o essencial era o seguinte:

Era americano, do Kentucky, e depois da faculdade, como tinha bastante dinheiro, saíra para conhecer o mundo. Escrevia um pouco, fora correspondente de guerra de um jornal de Chicago e passara um ou dois anos no sudeste da Europa. Pelo que entendi, era um excelente poliglota e conhecia bastante bem a sociedade daquelas paragens. Falava com familiaridade de muitas pessoas cujos nomes eu me lembrava de ter visto nos jornais.

Andara se metendo em política, contou-me, primeiro por interesse no assunto e depois porque já não conseguia ficar de fora. Pareceu-me um sujeito perspicaz e inquieto, sempre querendo chegar à raiz das coisas. Fora um pouco mais fundo do que desejava.

Relato o que ele me contou, tal como consegui entender. Por trás de todos os governos e exércitos, havia um grande movimento clandestino em curso, dirigido por gente muito perigosa. Ele o descobrira por acaso; ficara fascinado; fora mais longe e acabara enredado. Pelo que entendi, a maioria dos envolvidos era daquele tipo de anarquista instruído que faz revoluções, mas havia também financistas que estavam no jogo pelo dinheiro. Um homem esperto pode lucrar muito num mercado em baixa, e lançar a Europa num conflito convinha aos dois grupos.

Contou-me coisas estranhas que explicavam muito do que me intrigava — acontecimentos da Guerra dos Bálcãs, como um Estado de repente levava a melhor, por que se faziam e desfaziam alianças, por que certos homens desapareciam e de onde vinham os recursos para a guerra. O objetivo de toda a conspiração era pôr a Rússia e a Alemanha em choque.

Quando perguntei por quê, disse que os anarquistas achavam que aquilo lhes daria uma oportunidade. Tudo seria posto no cadinho, e eles esperavam ver surgir um mundo novo. Os capitalistas encheriam os bolsos de siclos e fariam fortunas comprando os destroços. O capital, disse ele, não tinha consciência nem pátria. Além disso, por trás de tudo estava o judeu, e o judeu odiava a Rússia mais do que odiava o inferno.

— E o senhor acha estranho? — exclamou. — Há trezentos anos que os perseguem, e esta é a revanche pelos pogroms. O judeu está em toda parte, mas é preciso ir bem fundo nos bastidores para encontrá-lo. Pegue qualquer grande empresa teutônica. Se for tratar de negócios com ela, o primeiro homem que vai encontrar é o príncipe von und zu Alguma Coisa, um jovem elegante que fala um inglês de Eton e Harrow. Mas ele não manda em nada. Se o negócio for grande, o senhor vai além dele e encontra um vestfaliano prognata, de testa recuada e modos de porco. Esse é o homem de negócios alemão que faz tremer os jornais ingleses. Mas, se estiver tratando de um negócio dos maiores e precisar chegar a quem de fato manda, pode apostar dez contra um que vai dar de cara com um judeuzinho de rosto pálido numa cadeira de rodas, com olhar de cascavel. Sim, senhor, é ele quem está mandando no mundo neste momento, e tem ódio mortal ao Império do czar porque a tia dele foi violada e o pai, açoitado num lugarejo de nada às margens do Volga.

Não pude deixar de observar que seus judeus anarquistas pareciam ter ficado um pouco para trás.

— Sim e não — respondeu. — Venceram até certo ponto, mas esbarraram em algo maior que o dinheiro, algo que não se podia comprar: os antigos instintos elementares de luta do homem. Se um homem está para ser morto, inventa alguma bandeira e alguma pátria pelas quais lutar e, se sobrevive, acaba amando aquilo. Aqueles pobres-diabos de soldados encontraram algo que lhes importa, e isso estragou o belo plano traçado em Berlim e Viena. Mas meus amigos ainda estão longe de ter jogado a última carta. Têm um ás na manga e, se eu não conseguir continuar vivo por um mês, vão jogá-lo e vencer.

— Mas pensei que o senhor estivesse morto — intervim.

— Mors janua vitae — disse ele, sorrindo. (Reconheci a citação: era quase todo o latim que eu sabia.) — Já vou chegar a isso, mas primeiro preciso pôr o senhor a par de muita coisa. Se lê os jornais, imagino que conheça o nome de Constantine Karolides.

Aprumei-me ao ouvir aquilo, pois lera sobre ele naquela mesma tarde.

— É o homem que estragou todas as jogadas deles. É o único grande cérebro naquilo tudo e, por acaso, também é um homem honesto. Por isso está marcado para morrer há doze meses. Descobri isso — o que não foi difícil, pois qualquer idiota poderia adivinhar. Mas descobri como pretendiam acabar com ele, e saber disso era uma sentença de morte. Foi por isso que precisei falecer.

Tomou mais uma dose, que eu mesmo preparei, pois estava começando a me interessar pelo sujeito.

— Não podem pegá-lo em sua própria terra, pois tem uma guarda de epirotas que esfolariam as próprias avós. Mas no dia 15 de junho ele virá a esta cidade. O Ministério das Relações Exteriores britânico deu para promover chás internacionais, e o maior deles está marcado para essa data. Pois Karolides é considerado o convidado principal e, se meus amigos conseguirem o que querem, ele nunca voltará para junto dos compatriotas que o admiram.

— Bom, isso é bem simples — eu disse. — O senhor pode avisar Karolides e mantê-lo em casa.

— E fazer o jogo deles? — perguntou, num tom cortante. — Se ele não vier, eles vencem, pois é o único homem capaz de desfazer o nó. E, se o governo dele for avisado, Karolides não virá, porque não sabe quanta coisa estará em jogo no dia 15 de junho.

— E o governo britânico? — perguntei. — Não vão deixar que assassinem os próprios convidados. É só dar o aviso, e eles tomarão mais precauções.

— Não adianta. Poderiam encher esta cidade de detetives à paisana e dobrar o efetivo da polícia, e Constantine continuaria condenado. Meus amigos não estão nessa por brincadeira. Querem uma grande ocasião para dar cabo dele, com os olhos de toda a Europa postos naquilo. Será assassinado por um austríaco, e haverá provas de sobra da conivência dos figurões de Viena e Berlim. Será tudo uma mentira infernal, claro, mas, para o mundo, a coisa vai parecer feia o bastante. Não estou falando por falar, meu amigo. Acontece que conheço cada detalhe da maquinação diabólica, e posso lhe dizer que será a canalhice mais perfeita desde os Bórgias. Mas não vai dar certo se um certo homem, que conhece as engrenagens do negócio, estiver vivo aqui mesmo em Londres no dia 15 de junho. E esse homem vem a ser este seu criado, Franklin P. Scudder.

Eu estava começando a gostar do homenzinho. Sua mandíbula se fechara como uma ratoeira, e o fogo do combate brilhava em seus olhos penetrantes. Se estava inventando aquela história, sabia representá-la muito bem.

— Onde descobriu essa história? — perguntei.

— Obtive o primeiro indício numa estalagem junto ao Achensee, no Tirol. Isso me pôs a investigar, e reuni as outras pistas numa loja de peles no bairro galiciano de Buda, num Clube dos Estrangeiros em Viena e numa pequena livraria numa transversal da Racknitzstrasse, em Leipzig. Reuni as últimas provas há dez dias, em Paris. Não posso contar os detalhes agora, pois é uma longa história. Quando fiquei plenamente convencido, considerei meu dever desaparecer e cheguei a esta cidade por um trajeto dos mais estranhos. Saí de Paris como um jovem franco-americano todo janota e embarquei em Hamburgo como um negociante judeu de diamantes. Na Noruega, fui um estudioso inglês de Ibsen recolhendo material para conferências, mas, quando deixei Bergen, era um homem de cinema com filmes especiais de esqui. E vim de Leith para cá com uma porção de propostas de negócios com madeira para celulose no bolso, para apresentar aos jornais londrinos. Até ontem, achava que os tinha despistado um pouco e estava bem contente. Então...

A lembrança pareceu perturbá-lo, e ele entornou mais um pouco de uísque.

— Então vi um homem parado na rua, em frente a este prédio. Eu ficava recolhido ao quarto o dia inteiro e só saía às escondidas depois de escurecer, por uma ou duas horas. Fiquei observando o homem da janela por algum tempo e achei que o reconhecia... Ele entrou e falou com o porteiro... Quando voltei do passeio ontem à noite, encontrei um cartão na minha caixa de correspondência. Trazia o nome do homem que menos quero encontrar neste mundo de Deus.

Creio que foi o olhar do meu companheiro, o pavor nu em seu rosto, que acabou de me convencer de sua sinceridade. Minha própria voz ficou um pouco mais incisiva quando perguntei o que fizera em seguida.

— Percebi que estava preso feito arenque em conserva e que só havia uma saída. Eu tinha de morrer. Se meus perseguidores soubessem que eu estava morto, voltariam a dormir sossegados.

— Como conseguiu?

— Disse ao homem que me serve de criado de quarto que estava me sentindo muito mal e me preparei para parecer à beira da morte. Não foi difícil, pois sei me disfarçar muito bem. Depois consegui um cadáver — sempre se pode conseguir um corpo em Londres, sabendo onde procurar. Eu o trouxe num baú no teto de uma carruagem de quatro rodas, e tiveram de me ajudar a subir para o quarto. Era preciso juntar boas provas para o inquérito. Fui para a cama, pedi ao criado que me preparasse uma dose de sonífero e depois mandei que fosse embora. Ele quis chamar um médico, mas soltei uns palavrões e disse que não suportava aqueles sanguessugas. Quando fiquei sozinho, comecei a disfarçar o cadáver. Tinha o meu tamanho e, pelo que julguei, morrera de beber demais, por isso deixei uns destilados por perto. O maxilar era o ponto fraco da semelhança, então o arrebentei com um tiro de revólver. É bem capaz de aparecer alguém amanhã jurando ter ouvido um tiro, mas não há vizinhos no meu andar, e achei que podia arriscar. Assim, deixei o corpo na cama, vestido com meu pijama, com um revólver sobre a roupa de cama e uma boa sujeira em volta. Depois vesti uma muda de roupa que tinha guardado para emergências. Não me atrevi a fazer a barba, por medo de deixar vestígios, e, além disso, de nada adiantaria tentar sair à rua. Passei o dia pensando no senhor, e parecia não haver outra coisa a fazer senão apelar à sua ajuda. Fiquei à espreita na janela até vê-lo chegar em casa, depois desci furtivamente a escada para encontrá-lo... Pronto, senhor, acho que agora sabe praticamente tanto quanto eu sobre este caso.

Ficou sentado, piscando como uma coruja, agitado de nervosismo e, ainda assim, com uma determinação desesperada. Àquela altura, eu estava quase inteiramente convencido de que ele era sincero comigo. Era uma história das mais extravagantes, mas eu já ouvira muitas histórias incríveis que acabaram se revelando verdadeiras, e tinha por hábito julgar mais o homem que a história. Se quisesse se instalar no meu apartamento para depois me cortar a garganta, teria contado uma história menos mirabolante.

— Me dê sua chave — eu disse —, e vou dar uma olhada no cadáver. Desculpe minha cautela, mas preciso conferir alguma coisa, se puder.

Ele balançou a cabeça, desolado. — Achei que fosse pedir isso, mas não estou com ela. Está na minha corrente, em cima da penteadeira. Tive de deixá-la lá, pois não podia deixar pistas que despertassem suspeitas. Os cavalheiros que estão atrás de mim são gente de olho muito vivo. Terá de confiar em mim por esta noite, e amanhã terá a prova da história do cadáver, pode ter certeza.

Pensei por um ou dois instantes. — Está bem. Vou confiar no senhor por esta noite. Vou trancá-lo neste cômodo e ficar com a chave. Só uma palavra, senhor Scudder. Acredito que seja honesto, mas, se não for, convém avisar que sei muito bem usar uma arma.

— Claro — respondeu, levantando-se com certa vivacidade. — Não tenho o privilégio de saber seu nome, senhor, mas deixe que lhe diga que o senhor é um homem branco. Faça a gentileza de me emprestar uma navalha.

Levei-o para o meu quarto e o deixei à vontade. Meia hora depois, saiu de lá uma figura que quase não reconheci. Só os olhos penetrantes e famintos eram os mesmos. Estava completamente barbeado, repartira o cabelo ao meio e aparara as sobrancelhas. Além disso, tinha a postura de quem recebera instrução militar e era o retrato, até na tez morena, de um oficial britânico que tivesse passado uma longa temporada na Índia. Tinha também um monóculo, que encaixou no olho, e todo traço de americano desaparecera de sua fala.

— Minha nossa! Senhor Scudder... — gaguejei.

— Senhor Scudder, não — corrigiu. — Capitão Theophilus Digby, do 40º Regimento de Gurcas, atualmente de licença na pátria. Faça o favor de se lembrar disso, senhor.

Preparei uma cama para ele na minha sala de fumar e fui para a minha, mais animado do que estivera durante todo o último mês. De vez em quando, as coisas aconteciam, até naquela metrópole esquecida por Deus.

Acordei na manhã seguinte com meu criado, Paddock, fazendo um escarcéu dos diabos à porta da sala de fumar.

Paddock era um sujeito a quem eu prestara um favor lá no Selakwe, e eu o pusera a meu serviço assim que chegara à Inglaterra. Tinha tanta lábia quanto um hipopótamo e não era lá grande coisa como criado de quarto, mas eu sabia que podia contar com sua lealdade.

— Pare com esse barulho, Paddock — eu disse. — Tem um amigo meu, o capitão... capitão... — não me lembrava do nome —, dormindo aí. Prepare o café da manhã para dois e depois venha falar comigo.

Contei a Paddock uma bela história: meu amigo era um figurão, andava com os nervos bastante abalados por excesso de trabalho e precisava de repouso e sossego absolutos. Ninguém podia saber que ele estava ali, senão seria assediado por comunicações do Ministério da Índia e do primeiro-ministro, e sua recuperação iria por água abaixo. Sou obrigado a reconhecer que Scudder representou esplendidamente quando veio tomar o café da manhã. Fitou Paddock pelo monóculo, tal e qual um oficial britânico, perguntou-lhe sobre a Guerra dos Bôeres e despejou para mim uma porção de conversa sobre camaradas imaginários. Paddock não conseguia aprender a me chamar de “senhor”, mas tratava Scudder de “senhor” como se a própria vida dependesse disso.

Deixei-o com o jornal e uma caixa de charutos e fui para a City, onde fiquei até a hora do almoço. Quando voltei, o ascensorista estava com um ar cheio de importância.

— Coisa feia o que aconteceu aqui hoje de manhã, senhor. O cavalheiro do número 15 deu um tiro nele mesmo. Acabaram de levar pro necrotério. A polícia está lá em cima agora.

Subi ao número 15 e encontrei dois tiras e um inspetor ocupados numa vistoria. Fiz algumas perguntas idiotas, e logo me puseram para fora. Depois procurei o homem que servira de criado de quarto a Scudder e o crivei de perguntas, mas percebi que não suspeitava de nada. Era um sujeito choramingas, de cara de cemitério, e meia coroa contribuiu muito para consolá-lo.

Compareci ao inquérito no dia seguinte. Um dos sócios de uma editora declarou em depoimento que o falecido lhe apresentara propostas de negócios com polpa de madeira e que, a seu ver, era representante de uma empresa americana. O júri concluiu que se tratava de suicídio em estado de perturbação mental, e os poucos pertences foram entregues ao cônsul americano para que lhes desse destino. Fiz a Scudder um relato completo do caso, que o interessou muito. Disse que gostaria de ter comparecido ao inquérito, pois achava que seria quase tão saboroso quanto ler o próprio necrológio.

Nos dois primeiros dias que passou comigo naquele cômodo dos fundos, esteve muito sossegado. Lia, fumava um pouco e fazia uma porção de anotações numa caderneta, e todas as noites jogávamos uma partida de xadrez, em que ele me vencia sem apelação. Acho que estava cuidando de recompor os nervos, pois passara por um período bastante difícil. Mas, no terceiro dia, percebi que começava a ficar inquieto. Fez uma lista dos dias que faltavam até 15 de junho e ia marcando um a um com lápis vermelho, acrescentando observações em taquigrafia ao lado. Eu o encontrava mergulhado em profundas reflexões, com os olhos argutos alheios a tudo, e, depois desses períodos de meditação, ele costumava ficar muito abatido.

Então percebi que seus nervos começavam a ficar outra vez à flor da pele. Ficava atento aos pequenos ruídos e vivia me perguntando se Paddock era de confiança. Uma ou duas vezes, mostrou-se muito irritadiço e pediu desculpas. Eu não o censurava. Relevava tudo, pois ele assumira uma tarefa bastante difícil.

Não era a própria pele que o preocupava, e sim o êxito do plano que traçara. Aquele homenzinho era pura fibra, sem um só ponto fraco. Certa noite, estava muito sério.

— Escute, Hannay — disse. — Acho que devo lhe contar um pouco mais sobre este caso. Detestaria morrer sem deixar outra pessoa para continuar a luta. — E começou a me contar em detalhes o que até então eu só ouvira dele por alto.

Não prestei muita atenção. A verdade é que eu estava mais interessado nas aventuras dele do que nas questões de alta política. Achava que Karolides e seus assuntos não eram da minha conta e deixava tudo aquilo por conta de Scudder. Por isso, muita coisa do que ele disse me fugiu por completo da memória. Lembro que deixou muito claro que o perigo para Karolides só começaria depois de sua chegada a Londres e viria das mais altas esferas, sobre as quais não recairia a menor suspeita. Mencionou o nome de uma mulher — Julia Czechenyi — ligada de algum modo ao perigo. Ela seria a isca, pelo que entendi, para tirar Karolides da proteção dos guardas. Falou também de uma Pedra Negra e de um homem que falava com a língua presa, e descreveu com minúcia alguém que nunca mencionava sem estremecer — um velho de voz jovem, capaz de velar os olhos como um falcão.

Também falou bastante sobre a morte. Estava mortalmente preocupado em levar a tarefa a bom termo, mas não dava a mínima para a própria vida.

— Acho que é como adormecer quando se está exausto e acordar para encontrar um dia de verão, com o cheiro do feno entrando pela janela. Eu costumava agradecer a Deus por manhãs assim, tempos atrás, lá na região do Bluegrass, e acho que vou agradecer a Ele quando acordar do outro lado do Jordão.

No dia seguinte, estava muito mais animado e passou boa parte do tempo lendo a biografia de Stonewall Jackson. Saí para jantar com um engenheiro de minas com quem precisava falar de negócios e voltei por volta das dez e meia, a tempo da nossa partida de xadrez antes de dormir.

Lembro que estava com um charuto na boca quando empurrei a porta da sala de fumar. As luzes estavam apagadas, o que me pareceu estranho. Fiquei me perguntando se Scudder já tinha ido se deitar.

Acionei o interruptor, mas não havia ninguém ali. Então vi uma coisa no canto mais distante que me fez deixar cair o charuto e suar frio.

Meu hóspede estava estatelado de costas. Uma faca comprida lhe atravessava o coração e o pregava ao chão.


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