Capítulo 1
O posto surgiu da escuridão antes do sol. Erguia-se onde a antiga estrada de carga fazia uma curva para o sul, um bloco baixo e cinzento de adobe, com uma viga de mesquite sobre a porta e nenhum vidro nas aberturas. Naquele verão, Ryan aprendera a ler uma construção como uma carga: para onde ia o peso, o que o sustentava, o que cairia primeiro quando o resto cedesse. Aquela cairia para dentro. Metade do teto já desaparecera. As paredes se apoiavam umas nas outras como homens no fim de um turno.
Ele limpava o mato junto à parede oeste com o tesourão, lançando arbustos de creosoto e galhos secos de ocotillo na direção da pilha de queima enquanto ainda tinha sombra. Por isso começara cedo. À primeira luz, o posto projetava no chão uma faixa fresca do comprimento de um caminhão, e um homem podia trabalhar nela por uma hora antes que o dia se transformasse no que pretendia ser.
Atrás dele, Peter mantinha em marcha lenta a pá carregadeira, com SUNWARD SALVAGE pintado de través na porta, uma bota no estribo e os óculos escuros presos ao cordão, balançando contra o peito. Na noite anterior, dissera a Ryan que o serviço inteiro levaria três dias e pagaria como cinco. Ryan fizera as contas naquele momento. Tornava a fazê-las agora. Três mil e duzentos dólares estavam no envelope colado sob a gaveta da cômoda, e o depósito para o Programa de Ofícios da Construção de Phoenix era menor do que a quantia que ele tinha, e cada dia daquele contrato deixava a diferença ainda mais fora de discussão. Sua mãe achava que havia menos no envelope. Ele deixava que pensasse assim.
O galho morto de ocotillo era cinzento, os espinhos como uma lima. Ele o arrastou para longe. A ponta prendeu no chão dentro da sombra e parou.
Ele empurrou. O galho não deslizou. O espinho ficou cravado na sombra como um prego numa lona esticada. A sombra afundou ao redor dele, formando uma depressão de bordas nítidas, e o segurou.
Ryan se agachou. Pousou a palma da mão no chão ao lado e sentiu o caliche, a areia grossa, o primeiro calor do dia subindo através da luva. Levantou o galho, e a depressão se desfez. Tornou a pousá-lo, e a depressão reapareceu.
A sombra encontrava a terra onde a parede a projetava: plana, unida, comum. Ele passou o espinho ao longo da borda. Arrastava como uma ponta sobre um tecido esticado, preso do outro lado ao posto.
Ryan não chamou ninguém. Ainda estava agachado, com o galho no punho, quando o motor da pá carregadeira morreu.
John Roberts contornou o prédio com a câmera no peito e uma das mãos erguida. Peter desligou a máquina sem perguntar por quê. Ele a desligava sempre que alguém passava diante da caçamba. John não olhou para Peter. Cruzou depressa o terreno limpo, ajoelhou-se junto à borda da sombra e pousou dois dedos sobre ela. Por um instante, pareceu mais jovem que seus vinte e quatro anos.
— Não mexa nela — disse John. — Não mexa em nada.
— É uma sombra.
— Está solta. — John tocou a borda da depressão. O pó de adobe deixou esbranquiçados os nós de seus dedos. — A borda está solta e o corpo continua preso. Cox, não ponha o pé nela.
Peter desceu da pá carregadeira. Examinou o chão, John e depois o sol, o único supervisor naquele canteiro que ele respeitava.
— Roberts — disse ele. — Você tem essa primeira luz. Só isso. Quando ela sair daquela parede, eu começo, porque tenho uma ordem de serviço que manda fazer isso e um homem em Tucson que sabe ler datas.
— Peter…
— Órale. A luz. — Peter voltou à pá carregadeira, sentou-se no degrau com a ordem dobrada no bolso da camisa e não ligou o motor.
John se levantou e percorreu a parede com as mãos estendidas, sem tocar, como Ryan o vira se mover durante toda a semana ao redor de qualquer coisa mais antiga que a estrada. Parou à porta. Pousou a palma da mão sob a verga de mesquite, onde a viga fora esquadrejada à enxó e depois recolocada, muito mal, por alguém que vivera bem depois do homem que a esquadrejara.
— Olhe as fiadas — disse ele. — Aqui. E aqui. São quatro reparos, talvez cinco. Barro diferente, palha diferente, mãos diferentes. Alguém continuou remendando uma construção pela qual ninguém cobrava.
— Como você sabe que ninguém cobrava por ela?
— Por causa daquilo. — John entrou no vão da porta e pôs a mão no lado interno da parede norte, onde o reboco estava desgastado até formar, à altura dos ombros, uma longa cavidade lisa, e, abaixo dela, havia dois nichos abertos no adobe, com uma crosta de mineral antigo. — As pessoas ficavam aqui, fora do sol, todas com as costas na mesma parede, por tempo suficiente para gastá-la. E deixavam água ali. Ninguém abre um nicho para um jarro num lugar onde cobra pelo jarro. Abre para que a próxima pessoa o encontre cheio.
Ryan foi até a porta. A cavidade no reboco ficava mais ou menos à altura de seu ombro. Alguém mais baixo que ele e alguém mais alto haviam se encostado no mesmo lugar, inúmeras vezes, desde antes de sua família chegar ao condado.
— Posto da Misericórdia — disse John. — Não é um nome inventado pelo departamento de marketing de alguém. Apenas continuaram fazendo isso até que a estrada passasse a chamá-lo assim.
— E por que isso importa?
John se virou. No vão da porta, seus olhos ficaram quase negros. — Porque a sombra de um lugar como este pode ser tirada daqui e posta em outro lugar. Uma vez. É só isso. Nenhuma outra coisa deste terreno pode ser transferida assim. Nem as vigas, nem as paredes. — Ele limpou as mãos na camisa. — Alguém já abrigou você do calor e depois não pediu nada à sua família?
Um piso frio de ladrilhos pressionava o rosto de Ryan. Máquinas giravam acima dele; atrás de um vidro, água e tecido rodavam devagar. Uma mão verificava seu pescoço enquanto uma voz dizia seu nome errado, depois certo. O vão da porta do posto condenado reapareceu ao redor dele, o tesourão ainda em sua mão.
— Sim — disse ele. — Uma vez.
— Cobraram de você? Depois, quando tudo acabou. Alguém da sua família pagou a dívida?
— Não. — Ele ouviu a própria voz perder toda a expressão. — Nós tentamos. Ela não aceitou.
John não perguntou quem. Olhou para Ryan por um segundo a mais do que seria confortável, então assentiu e voltou para a luz. — Nesse caso, tem de ser pelas suas mãos, ou pelas de ninguém.
— Diga isso de novo.
— Quem dá início tem de ser alguém que foi abrigado daquela maneira e ainda esteja vivo para se lembrar. — John se agachou no canto onde a parede encontrava a entrada e passou os dedos por uma fratura. — Não o proprietário. Não a equipe. Seu tio tem uma ordem de serviço e Rusk tem uma escritura, e nenhuma dessas coisas significa nada para aquilo. — Indicou a sombra com o queixo. — Ela não sabe o que é uma escritura. Nunca ouviu falar da Rusk Desert Development.
— Que bom para ela — disse Ryan.
Da fratura saiu, sob as mãos de John, um pedaço do batente da porta do tamanho de um pão, adobe com um trecho de mesquite do batente, do comprimento de uma mão, ainda entranhado nele, barro comprimido ao redor de madeira comprimida ao redor de barro, uma coisa só.
— Aqui — disse John em voz baixa. — Esta é a pedra-chave.
Ryan a deixou nas mãos de John. Pousou o tesourão no chão, mas manteve o galho de ocotillo preso no punho. John estava ajoelhado na terra, segurando um pedaço da construção.
— Antes de eu tocar nisso — disse Ryan —, você vai me contar o preço inteiro. Não só a parte que vai me dar vontade de fazer isso.
John se levantou com o fragmento apoiado no quadril. Então contou o preço a Ryan.
— Se ela se desprender, esta construção nunca mais terá sombra. Nem amanhã, nem daqui a cinquenta anos. A partir desse minuto, o sol atinge as paredes diretamente, e elas cedem. Adobe sob sol pleno, sem nada por cima, logo se abre em rachaduras. — Ele acomodou o fragmento contra o quadril. — Ela se move uma única vez. Não há como trazê-la de volta para cá, não há uma segunda mudança mais tarde se escolhermos errado. Precisa permanecer coberta durante todo o caminho, com algo que a luz não atravesse, sem frestas. Precisa ser carregada. E precisa ser colocada numa armação antes do próximo meio-dia solar. Uma armação feita por gente, já erguida, sem teto e que não seja maior, em nenhuma direção, que a base deste posto.
— Senão?
— Senão descobrimos isso também.
Ryan olhou para a sombra. Ela jazia ali como jazem as sombras, e a depressão onde o espinho entrara tornara a se fechar como se nada tivesse acontecido.
— E se formos embora? — disse ele. — Se eu largar este galho e terminar de limpar o mato.
— Então ela fica onde sempre esteve.
— Até quando?
O maxilar de John se moveu. Ele era um homem paciente e, antes mesmo de abrir a boca, já não tinha a resposta que gostaria de dar. — Até a máquina do seu tio chegar a ela.
Do degrau da pá carregadeira, Peter disse: — Dois dias. Talvez um, pelo jeito que está inclinada.
Enquanto falavam, a faixa fresca se estreitou. Sua borda atravessou a pedra da soleira e cobriu a entrada desgastada. Ryan acompanhou seu avanço como uma corrente se retesando.
Peter tirou a ordem de serviço do bolso e a ergueu sem desdobrá-la. — Rye. Eu também gosto dele. Mas esse papel tem uma data, e a promissória da minha pá carregadeira também tem, e só uma dessas duas vai me tratar bem.
— Eu sei o que ele tem.
— Então.
Ryan foi até o estojo de ferramentas de John, e John lhe entregou a sovela antes que precisasse pedir: um cabo de madeira com um longo espinho de ocotillo encaixado e amarrado na ponta, enegrecido no extremo por outros trabalhos.
— Estenda sua lona — disse Ryan. — Ao lado da pedra-chave. Onde você quer aparar a sombra.
John não se mexeu. — Quero dizer isto uma vez. Acho que você está errado. Acho que daqui a dez anos alguém vai ficar onde você está agora, e não haverá posto algum diante do qual ficar, e será por causa desta manhã.
— Está bem.
— E eu vou ajudar você.
— Eu sei — disse Ryan. — Estenda a lona.
John tirou a Lona da Noite do caminhão da Fundação e a sacudiu para abri-la. Era uma lona pesada, preta por inteiro, do tipo que exige dois homens para dobrar, e caiu na terra ao lado da porta com o som de uma porta se fechando. Peter observava da pá carregadeira, de braços cruzados.
— Não estou dizendo que podem usar o caminhão — disse Peter. — Direi isso quando vir a sombra se desprender, não antes. Não vou atravessar o condado dirigindo um caminhão-plataforma para ajudar vocês a carregar um boato.
— Certo — disse Ryan.
Ele se ajoelhou junto à borda da sombra.
O traçado precisava ser uma única linha, disse John, sem interrupções, dando a volta inteira e voltando ao ponto onde começara, e Ryan pousou o espinho junto à entrada e riscou.
A ponta avançava como se atravessasse areia compactada e depois alguma outra coisa. Atrás do espinho, a sombra se alterava. Ele a via pelo canto do olho e se recusava a encará-la: a planura desaparecendo, a borda começando a se erguer do chão como a ourela de uma lona quando se levanta um dos lados. O caliche transmitia seu calor através dos joelhos da calça jeans. Ryan se arrastava e riscava, arrastava-se e riscava, contornando a parede oeste onde estivera jogando o mato, enquanto o sol surgia sobre a crista atrás dele e começava a tomar o chão que ele já percorrera.
A faixa da primeira luz recuava à sua frente. Ele riscou mais depressa do que desejava.
No canto norte, o terreno formava um ressalto de caliche solto, e o espinho saltou. Ryan firmou a outra mão e recuperou a linha enquanto a sovela virava em sua palma, e a ponta atravessou o couro da luva, entrou na carne abaixo do polegar e se arrastou por ela.
Ele não interrompeu a linha. Continue. Você não pode começar de novo; não existe de novo. Um calor se acumulou dentro da luva, junto ao punho.
Ao longo da parede leste, a sombra restante tinha a largura de uma mão. Ele avançou sobre os calcanhares, encurvado, riscando ao longo dela com a sovela, de braço estendido, o sol na nuca como uma mão que pressionava. John caminhava ao seu lado com a lona reunida contra o peito e não disse absolutamente nada até os três pés finais.
— Agora — disse John. — Pegue a pedra.
Ryan fechou a linha na soleira. Largou a sovela, segurou com as duas mãos o fragmento que John soltara e puxou.
A pedra-chave saiu do batente, e a sombra se desprendeu do chão.
Desprendeu-se como uma vela apanhada pelo vento, num único movimento imenso e suave. Todo o corpo escuro se ergueu, dobrou-se sobre si mesmo e correu na direção das mãos de Ryan como água ralo abaixo. John lançou a lona sobre ele. Ryan meteu os braços por baixo.
Então veio o peso.
Nada o avisou. Entre uma respiração e a seguinte, passou de ar a carga e o derrubou sobre um dos joelhos, e ele ouviu John gemer, praguejar e aguentar. A lona se enfunava sobre algo que tinha forma, mas não borda. Ryan cravou o ombro naquilo e se levantou, e a carga se ergueu com ele, e era mais pesada do que qualquer coisa que já tivesse levantado.
E a manhã desapareceu.
A luz permaneceu onde estava; o calor cessou. Em todo ponto onde seu corpo tocava o peso coberto, o dia simplesmente deixava de dar notícia: nenhum sol nos antebraços, nenhum ardor do caliche através do joelho, nenhum calor do próprio sangue dentro da luva. Ele sentia a pressão, a textura, a trama da lona. A temperatura fora apagada.
— Está frio — disse ele.
— Não está frio. — A voz de John veio do outro lado da forma, tensa. — Não há frio. Não há coisa alguma. Não confie nas suas mãos agora, Cox. Não enquanto isso não acabar.
Ryan virou a cabeça.
Onde estivera a sombra, o chão se estendia aberto e pálido até a parede. Pela primeira vez em incontáveis anos, o posto se erguia dentro dos próprios limites sob o sol pleno. A luz entrava pela porta e pelas janelas vazias. Expunha o reboco gasto pelos ombros e os dois nichos de água. Dentro ou ao redor do posto, não restava lugar algum onde se pudesse ficar fora do alcance do dia.
Em algum ponto da parede oeste, um pedaço de adobe do tamanho de um livro se soltou, deslizou para baixo e se desfez na terra.
Peter desceu do degrau da pá carregadeira. Cruzou o terreno descoberto de boca aberta, como um homem que se aproxima de uma máquina que fez algo para o qual não foi construída, parou à borda do que fora sombra, pôs a bota ali e baixou os olhos para a própria bota.
— Rye — disse ele.
— Eu sei.
— O que foi que você… — Ele parou. Olhou para a parede, para a cicatriz recente onde o adobe se desprendera e para o sobrinho, curvado sob uma coisa coberta, com sangue atravessando a luva junto ao punho. — Você está sangrando.
— Não consigo sentir.
— Isso não é resposta, mijo.
— É a única que tenho. Peter, não podemos pôr isso no chão.
Os braços de John tremiam. Ele sustentava a carga no alto do peito, as botas deslizavam no terreno solto, e ele tinha vinte e quatro anos, pesava cento e sessenta libras e vinha segurando a extremidade mais baixa desde que ela caíra. — Duas pessoas sustentando — disse ele. — No mínimo. O caminho todo. Não posso tirar as mãos até alguém pegar.
Peter permaneceu ali.
Olhou para a pá carregadeira, para a ordem de serviço dobrada no bolso, para o posto exposto ao sol, perdendo o rosto. Então praguejou em duas línguas, deixou os óculos espelhados no assento da pá para que não caíssem, aproximou-se e pousou as duas mãos espalmadas na lona ao lado das de John.
— Peguei — disse ele. — Johnny. Peguei. Vai.
John soltou. Cambaleou dois passos, caiu sentado com força e tornou a se levantar.
— Na carroceria do caminhão-plataforma — disse Peter. — Agora, antes que eu pense.
Eles a levaram sobre os ombros pelo terreno aberto, três homens inclinados para dentro, e Ryan estendeu a mão ferida para agarrar a grade lateral do caminhão-plataforma e se puxar para cima sob a carga. O aço estava ao sol desde que ele surgira sobre a crista. Ryan o segurou durante a contagem para erguer a carga e não sentiu absolutamente nada, e a pele sob a luva rasgada formou uma bolha da qual ele só saberia horas mais tarde.
Conseguiram pôr a carga na carroceria. Peter subiu ao lado deles, tornou a pousar as mãos sobre ela e respirou por entre os dentes enquanto examinava a estrada por cima da cabine. Seu rosto refez a aritmética daquela manhã e foi parar em outro lugar.
— A enxurrada levou o bueiro depois do marco de milha — disse Peter. — A estrada direta foi cortada. Com o caminhão carregado, o eixo dianteiro não vence o vão.
— E então?
— Então vamos pelo caminho mais longo, e vamos agora. — Ele cuspiu por cima da grade. — Porque essa coisa tem até amanhã ao meio-dia, e sob a Black Tank Road não há nada além de areia.
O caminhão partiu através do mato que Ryan limpara, e o Posto da Misericórdia ficou para trás, cada vez menor na luz chapada, com o sol sobre as quatro paredes e sem nada escuro por perto.




