Capítulo 1: Uma cama para o príncipe Briar
O gancho de ferro está vazio. Tenho uma bota firmada contra uma cinta de serviço, a outra contra o grão interno e quente do salão de baile, e o crepúsculo espreme sua última moeda cinzenta pela fresta acima da minha cabeça. Do outro lado da madeira, João Dominguez pede o giro da coroação. Quarenta pares de sapatilhas deslizam para a esquerda. Cinco costuras de porta respondem sob as solas dos meus pés. A Casa Briar puxa as paredes para dentro e torna a empurrá-las para fora, lenta e úmida, comigo encaixada entre elas.
Um disco de contagem preto deveria pender daquele gancho. Só é retirado do carrinho da Alimentação ao entardecer depois que o crescimento morto chega à Adega. Sem disco, sem entrega. Sem entrega, uma casa faminta cheia de gente vestida para o jantar. Mesmo assim, estico-me mais e raspo os nós dos dedos no ferro nu. O gancho me dá exatamente o que os salários da corte costumam dar a um mortal: nada, mais um corte.
Abandono a rota de inspeção e avanço de quatro até o painel de serviço. A parede se estreita na terceira cinta. O calor cola à minha coluna a roupa do turno de trabalho, e o grão amoleceu o bastante para receber a marca da minha palma. Do outro lado, as violas ascendem num pequeno frenesi luminoso. Os nobres aplaudem. Seda cor de ameixa e tecido dourado passam em fatias pelas frestas de observação, toda aquela carne quente embrulhada com esmero para a Casa Briar.
Josué Johnson espera do outro lado da grade. É claro que espera. O futuro rei encontrou o único painel entre mim e a escada de combustível e se apoia nele, vestido de veludo preto e ouro martelado, como se gerações de criados o tivessem feito crescer unicamente para sustentar seu ombro. Seus olhos âmbar encontram os meus através do rendilhado. Um de seus anéis está virado para dentro, contra a palma.
“Abra o painel.”
O sorriso dele surge impecável e indolente. “Parece que a criadagem real perdeu uma serva. Fique fechado.”
O painel se aperta no caixilho. O sangue real pode dizer a uma parte já existente da Casa Briar aonde ir, e Josué gosta de usar esse dom em tarefas que envergonhariam um calço de porta. Achato a palma nua contra o grão, ao lado da mão dele. A madeira está mais quente que uma febre. Pior: suga o calor da pele de Josué; o bronze pálido em torno de seus anéis desbota para o cinza.
“O carrinho da alimentação nunca chegou à adega”, digo. “Se me mantiver aqui, o salão de baile vai comer seus convidados antes de reconhecer sua coroa.”
“Que preocupação tão doméstica.” O olhar dele desce até minha mão. O sorriso permanece, mas ele tira os dedos do painel. “Por certo a célebre manutenção da Casa Briar inclui um segundo esfregão.”
Uma corda grave soa do outro lado. Sob a nota vem uma pancada de madeira, profunda o bastante para sacudir meus dentes. Uma porta externa se selou. Restam quatro. “Abra a escada de combustível, Josué.”
Ele me observa com o interesse que costuma reservar para alguém prestes a passar vergonha. Odeio aquele olhar. A linha perfeita da boca dele é um problema à parte e, portanto, não lhe diz respeito. “Você sabe qual é a escada, mesmo de dentro de uma parede, Débora? Isso parece quase útil.”
O grão afunda sob minha palma. Arranca de mim um bocado de calor, rápido e voraz. Josué vê meus dedos se contraírem. A mão dele se fecha em torno do anel virado para dentro. Então, com a voz despida da música da corte, diz: “Abra.”
O painel mais próximo dos dançarinos se escancara. Naturalmente, ele escolhe esse. Caio através de um biombo pintado com a Coroa Raiz se abrindo sob estrelas obedientes e me seguro no caixilho sobre rodas. Atrás de mim, a abertura se fecha. Do outro lado do salão, o primeiro par de portas se encontra com um estalo polido de madeira. João ergue os dois braços, encantado, e a orquestra ataca a passagem mais sonora que ele usa sempre que a realidade aprimora seu trabalho.
O piso adquiriu uma inclinação. A maioria não percebe porque os dançarinos de João já estão girando ladeira abaixo. As roupas compõem um banquete em movimento de ameixa, marmelo, creme e ouro tostado. O perfume adoça o suor que se ergue da multidão. Por baixo está o cheiro verde de adega do espinheiro oco partido. A Casa Briar parou de fingir que é arquitetura.
“Servidores mortais para o mármore norte”, digo à fila de bandejas mais próxima. “Levem as jarras de água. Deixem a prata.”
Um lacaio olha para Benjamim em vez de se mover. O regente está perto das portas da ala de hóspedes, os ombros largos sem ornamento sob um casaco escuro da corte, observando Josué atravessar o salão. Benjamim faz o mais leve aceno. Permissão. O lacaio obedece a ele, embora a ordem tenha vindo de mim. É assim que o serviço funciona aqui. Uma pessoa sabe onde está a segurança; outra é dona do aceno.
Empurro o biombo da coroa de João sobre a costura mais quente e tomo um segundo biombo de um pastor mascarado. João se lança para junto de mim, os cabelos acobreados trançados com fitas verdes e os olhos cinza-violeta brilhando. “Débora, querida, se vai mudar a marcação, dê-me oito tempos.”
“Dê-me todos vivos no final.” Aponto para a plataforma dos músicos. “Ponha os biombos entre os dançarinos e o medalhão central. Não deixe ninguém pisar numa costura escura.”
Ele olha para baixo. O piso laqueado forma uma concavidade sob seus sapatos cravejados de joias, afundando em direção à Coroa Raiz no centro. Um homem sensato talvez parasse a música. João marca o ritmo com palmas ainda mais fortes. Seus dançarinos seguem as mãos dele para longe do centro e, por alguns segundos, o terror veste tão bem a coreografia que a corte o aplaude.
A portinhola de serviço ao lado do mármore norte inchou até se fechar. Engancho o Gancho de Cinzas na argola de ferro e puxo. A ferramenta curva morde minha palma através dos calos antigos. Dois servidores se juntam a mim sem que eu peça, um firmando minha cintura e o outro arrancando o caixilho. Do outro lado do salão, os convidados imortais reclamam que os biombos estragam a vista. Então uma costura de espinheiro oco se abre sob uma dama de seda amarela e se fecha sobre a ponta de sua sapatilha.
O grito dela corta as violas ao meio. O sapato continua preso. Ela consegue tirar o pé, com a meia rasgada e dois dedos sangrando, enquanto a costura mastiga a seda para dentro do piso. Os que estão mais perto enfim entendem. Isto não é um truque de João. A casa escolheu um sabor.
A portinhola se abre com um rasgo. O ar frio desce da escada de serviço, trazendo graxa de eixo e o pó acre de raízes mortas. Jasmim está três patamares acima de mim, com as duas mãos em torno da grade de um carrinho. A saia azul-da-corte está presa no cinto, os cachos lisos se soltaram sobre um dos olhos e as chaves de latão em seu quadril batem umas nas outras. Atrás dela está o carrinho da Alimentação ao entardecer, carregado e abandonado.
“Encontrei-o na galeria espelhada”, grita ela. “A roda está travada por uma cunha. A ficha de despacho sumiu.”
Outra porta bate. Três. O salão de baile se inclina com força suficiente para mandar as taças rolando para o centro. Arrasto o biombo da coroa de través, e os servidores enfiam as rodas numa costura do piso, formando uma barreira entre a multidão encurralada e o trecho mais íngreme do laqueado. João faz os pastores e as rainhas girarem atrás dele. Sua voz luminosa lhes dá passos que os impedem de ouvir a palavra correr.
“Retire a cunha e leve o carrinho para baixo”, digo a Jasmim. “Use a descida leste. Não toque nos corrimãos vivos.”
O olhar dela percorre as pessoas amontoadas sobre o mármore norte. Jasmim as conta; sempre conta os esquecidos antes de contar a si mesma. “Você não consegue sustentar este piso sozinha.”
“O Fogão de coração consegue. Alimente-o.” Procuro veludo preto entre o ouro e o tom de ameixa. Josué desapareceu. Benjamim também. A porta da ala de hóspedes permanece aberta numa parede onde todas as outras portas estão se fechando. De além dela vem a voz de Josué, despida da indolente música da corte.
“Abra a rota para o Assento Espinhoso.”
As palavras atravessam a galeria espelhada. Então a madeira estala, seguida de um grunhido que se interrompe de súbito. Deixo Jasmim com o carrinho e corro.
A galeria de convidados me devolve a mim mesma em vinte espelhos articulados: rosto moreno lustroso de suor, alfinetes de latão escapando dos meus cachos, o Gancho de Cinzas negro em meu punho. Na extremidade oposta, Benjamim está diante do quarto de Josué, com uma das mãos no umbral. A porta se fechou para dentro da parede. Atrás dos painéis polidos, o quarto se contrai ao redor do herdeiro. O ombro de Josué aparece por uma abertura não mais larga que um prato de jantar. Um poste entalhado da cabeceira da cama se comprime sob suas costelas.
“De novo”, diz Benjamim. Sua voz tem a calma que ele usava ao ensinar a Jasmim e a mim quanto tempo de fome melhora a obediência. “Ordene a abertura da rota para o Assento Espinhoso. A casa conhece seu sangue.”
A mão impecável de Josué arranha o ar através da abertura. Agora todos os anéis estão virados para dentro. “Abra a porta.”
Nada se abre. Em vez disso, o grão faminto se aperta em torno do pulso dele. O sangue real move portas, escadas, painéis, todas as partes que a casa já possui. Não consegue suspender a caça ao calor, assim como um príncipe não pode ordenar a uma armadilha que se arrependa do tornozelo que agarrou.
Cravo o Gancho de Cinzas entre a porta e o caixilho. A ponta de ferro entra 2 polegadas e para. Pela abertura cada vez mais estreita, vejo a cama de hóspedes vergada num arco torto, o colchão dobrado, as cordas retesadas. Josué está preso entre a peseira e a parede que se fecha. O grão polido forma conchas em torno de seus ombros. O rosto dele perdeu a esperteza. Sem ela, parece jovem para um imortal e furioso com esse fato.
“Espere, Débora”, diz Benjamim. “O quarto é valioso.”
Firmo uma bota contra a parede e puxo o gancho. “A pessoa dentro dele também, segundo o programa de amanhã.”
Benjamim agarra a haste de ferro e a imobiliza. Ele tem quatro séculos de força, e eu tenho uma ferramenta feita para fogões. A disputa termina onde seria de esperar. “A casa cederá quando for alimentada. Preserve o quarto.”
Do salão de baile vem outro estrondo para dentro. O carrinho não pode chegar ao Fogão de coração antes que este aposento se dobre. Benjamim sabe disso. Observa Josué sendo esmagado com a paciência de um homem à espera de descobrir qual lâmina conserva o fio. Josué era o teste dele. Eu sou o segundo.
Largo o Gancho de Cinzas.
Há uma fresta de serviço atrás da cama porque eu mesma a cortei e lubrifiquei durante uma estação inteira de cuidados. Meu registro está sob a fuligem da Adega, onde nenhum cortesão se deu o trabalho de procurar, e guardei esse segredo como os pobres guardam uma moeda de ouro: imaginando todas as portas que ela poderia comprar. Um quarto para Jasmim. Uma estrada até Amanhecer. Minha própria mão sobre a Casa Briar, com Benjamim obrigado a pedir.
Nenhuma dessas portas se abre enquanto eu conservar a moeda.
Passo pelo ombro de Benjamim e enfio as duas mãos nuas pela fresta. Meus dedos agarram a colcha. Arranco-a, lançando os travesseiros contra a parede que se fecha. A casa puxa o linho para baixo em ondulações famintas. Uma cama retém um corpo; esse é seu trabalho doméstico. Desmonte-a, quebre-a, faça-a deixar de ser uma cama, e o hóspede terá de ir para outro lugar. O Hearthright é mesquinho assim. Quer trabalho, simples e exato. Também quer pagamento.
“Preserve-a”, diz Benjamim.
As costelas de Josué batem na cabeceira da cama. A cabeça dele se volta bruscamente para mim. “Débora.”
Nenhum apelido carinhoso. Nenhuma piada. Apenas meu nome.
Enfio os dedos no tecido do colchão e puxo até rasgá-lo. Penas explodem contra o casaco preto de Josué. Sob elas, as cordas da cama se retesam sobre a armação. Trabalhei naquelas cordas no inverno passado. Sei qual nó sustenta o peso central e qual pino o aposento fez crescer torto depois de uma alimentação úmida. Minha mão esquerda solta o nó com as unhas. A direita arranca o pino para cima. A pele da minha palma se abre.
“Esta cama está desfeita”, digo à casa. “Abra mão de seu hóspede.”
A armação luta comigo. É claro que luta. A Casa Briar nunca confundiu cuidado com bondade. Arranco uma barra lateral, depois a outra. O último pino gira sob meu polegar. Por um segundo repulsivo, quero que a corte veja. Quero que Benjamim veja seu precioso sangue fracassar onde minhas mãos mortais queimadas têm êxito. Querer isso não torna o resgate falso. Torna-o meu.
A cama se desfaz.
A madeira se dobra para dentro com o som de galhos verdes quebrando sob uma carroça carregada. O colchão, as barras, os postes entalhados e metade da parede interna se juntam num nó duro. Uma massa equivalente desaparece do aposento. O teto desce. Então o quarto diminuído tem uma convulsão e lança Josué pela costura de porta que não existia um instante antes. Ele bate com o ombro no piso da galeria e desliza contra o suporte de um espelho.
Uma lasca de raiz negra atravessa as articulações da minha mão direita. Entra abaixo do primeiro nó dos dedos e avança de lado sob os demais. A dor transforma meu braço num sino golpeado. Meus dedos se abrem de súbito. Não voltam a se fechar. O sangue goteja sobre a colcha rasgada enquanto o quarto se acomoda em torno da cama ausente, agora menor, permanentemente errado.
Josué se ergue sobre um cotovelo. Estende a mão para mim, a mesma que mandou o painel se fechar. Eu me afasto. O rosto dele se contrai, de dor ou de ofensa não sei dizer, e não há tempo para escolher qual das duas prefiro.
Os espelhos de João giram nas dobradiças de latão. Um após o outro, afastam-se da corte em fuga e se voltam para mim. Minha mão ensanguentada aparece doze vezes, depois vinte, multiplicada ao lado do quarto esmagado e do príncipe no chão. João está na entrada da galeria, com os dois braços abertos, regendo a atenção agora que a orquestra se calou.
“Tribunal Enraizado”, diz ele, com voz luminosa o bastante para que cada nobre apavorado o ouça, “contemplem a mão que moveu seu príncipe briar.”
O salão de baile torna a estremecer. Aplausos teriam sido mais fáceis. Apanho o Gancho de Cinzas com a mão esquerda e corro para a escada de serviço. A direita pende semicerrada contra minha saia. Cada passo sacode a lasca. Atrás de mim, Josué chama meu nome uma vez. Benjamim não diz nada. Seu silêncio me segue mais de perto.
Jasmim libertou o carrinho e levou a maior parte de seu peso pela descida leste. Agarro a grade traseira com a mão esquerda. Juntas, conduzimos a carga para a Adega, onde o Fogão de coração brilha vermelho como brasa através da boca de ferro, e a Coroa Raiz se amontoa acima de nós em espirais secas que se apertam. O crescimento morto no carrinho bate e se desloca: espinheiro oco podado, cintas de aposentos gastas, comprimentos de raiz negra grossos como pulsos. Comida suficiente, entregue tarde.
“Sua mão”, diz Jasmim.
“Empurre.”
Ela empurra. Enfio o Gancho de Cinzas sob o primeiro feixe, mas a haste rola quando meus dedos direitos não conseguem se fechar em torno dela. O ferro bate no chão. A boca de Jasmim forma uma linha reta. Ela sustenta o peso do carrinho enquanto mudo de lado, encaixo o gancho sob o antebraço esquerdo e uso a alavanca para lançar o crescimento morto no fogo, uma carga de cada vez. A fumaça reveste minha língua de seiva amarga. O fogão recebe o primeiro feixe, depois o segundo. Acima de nós, o palácio range em torno das portas do salão de baile.
Na pilha final, um selo de cera escura captura a luz do fogo. A marca de regente de Benjamim está gravada no cordão do carrinho. Conheço aquele sinete. Ele já fechou inventários da despensa, folhas de pagamento e, certa vez, a caixa que continha as dívidas de arrendamento dos meus pais. Significa que o carrinho passou pela autoridade dele antes que alguém o deixasse travado na galeria de convidados.
O último comprimento de raiz cai no Fogão de coração. Uma chama azul percorre a casca. A Casa Briar se afrouxa centímetro a centímetro: primeiro a Coroa Raiz, depois as paredes da adega, então as portas distantes do salão de baile, que se abrem com um longo gemido de madeira. Jasmim segura meu pulso ferido antes que ele possa bater no fogão, cuidadosa e furiosa. No alto da escada, Josué está contundido sob os espelhos atentos de João. Além dele, Benjamim olha do selo de regente para minha mão arruinada, e seus olhos verdes se detêm nela com a satisfação de um homem que acaba de encontrar a ferramenta perdida dentro da própria casa trancada.
