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Capa do livro “Brian Hale não é seu amigo”, de Margaret Ellery

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Brian Hale não é seu amigo

De Margaret Ellery

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Capítulo 1: A Rodada de Inspeção

O suporte do tubo de queda do número 19 deslizara 1/4 de polegada desde terça-feira. Brian encaixou o polegar sob a abraçadeira, nivelou-a com cuidado e tirou a folga com a chave de fenda curta que carregava no bolso esquerdo do casaco exatamente para esse fim. Eram 6h40 de uma manhã de outubro, a luz ainda cinzenta sobre as linhas dos telhados das Linhas de Moorfield, e a ronda seguia o horário: quatro verificações feitas, sete por fazer, a ferradura silenciosa, exceto por um carro elétrico do leite a duas ruas dali e pelos próprios calcanhares batendo nas lajes.

Verificou o suporte: abraçadeira no esquadro, parafuso assentado. Depois seguiu adiante. A ronda tinha uma ordem, e a ordem tinha suas razões. Calhas antes de portões, porque a água causava mais estragos que as dobradiças. Portões antes do gramado, porque um portão deixado a balançar dizia mais a um estranho que passasse sobre uma rua do que qualquer extensão de grama seria capaz de dizer. O gramado antes do quadro de avisos, porque o quadro de avisos vinha por último, e o último era o lugar que ele reservava para a parte de que gostava.

Contornou a ferradura e o viu a 30 pés de distância: um retângulo branco onde branco algum deveria estar.

O quadro de avisos era dele. Brian o construíra com compensado naval e uma moldura de carvalho reaproveitada, colocara o vidro, revestira de feltro o pequeno telhado e, desde então, alinhava os papéis todas as manhãs: a rotação de corte, o calendário do lixo, as atas de um comitê que deixara de produzir atas que valessem a leitura. Alguém pregara bem no centro, por cima da escala, uma folha plastificada, presa com quatro tachinhas de latão. Ele não tinha tachinhas de latão. Ninguém no comitê tinha tachinhas de latão. Tirou os óculos de leitura.

HALLORAN E VANE — PEDIDO DE DISSOLUÇÃO DO PACTO DE MORADORES. Sob o cabeçalho, uma coluna de letras miúdas na linguagem de que ele mais desconfiava, aquela que chamava uma rua de “o terreno em questão”. Um pedido fora protocolado junto ao conselho. Um período de liquidação previsto em lei tivera início. As partes interessadas eram encaminhadas a um portal, um número de referência, um prazo. E ali, a quatro linhas do fim, em caracteres não maiores que os demais e, aos olhos de Brian, duas vezes mais pesados: nos termos da Cláusula 19 do Pacto de Moradores (1984).

Leu a folha inteira duas vezes, mais devagar na segunda. A mão enluvada repousava na moldura que ele construíra, enquanto a folha permanecia atrás da plastificação como um espécime, protegida das intempéries, pronta para durar mais que o quadro em que fora pregada. Alguém pensara na chuva. Alguém pensara nele.

Dobrou os óculos e os guardou. Depois concluiu a ronda, porque a ronda não estava concluída.

Passou pelo número 16, onde a placa de VENDE-SE fora instalada em junho. Passou pelos números 14 e 12, vendidos com menos de quinze dias de intervalo em agosto. Agora eram onze propriedades perfeitas, caso alguém estivesse contando, e Brian contava todas as manhãs sem jamais dizer o número em voz alta. As placas eram todas da mesma firma, todas com o mesmo padrão ameixa e creme, inclinadas para chamar a atenção de quem vinha pela rua. Na alameda das garagens, parou sob a calha defeituosa do bloco da ponta e retirou com dois dedos o tampão de folhas, um reparo que ninguém pedira, num edifício que ninguém admitia possuir. A água correu. Ele limpou os dedos no pano que carregava para esse fim e permaneceu ali um momento além do exigido pelo trabalho.

Cláusula 19. Conhecia o Pacto como outros homens conheciam hinos, não por estudo, mas por repetição. Dezenove cláusulas, e os fundadores haviam posto a estranha por último, onde os advogados põem a armadilha. Brian a recitava para Diana sempre que o comitê ameaçava modernizar a redação, e ela dizia a mesma coisa todas as vezes: deixe como está, Brian, isso é suporte de carga.

No número 4, o canteiro de rosas estava podado conforme o regulamento, as flores murchas removidas no domingo pela mão do próprio Brian, as últimas florações relegadas ao composto, onde o sentimento não pudesse alcançá-las. Duas portas adiante, a placa ameixa e creme acima da antiga cerca dos Melton pendia três graus fora da vertical. Em qualquer outra manhã, ele a teria endireitado por princípio, sendo o princípio que até um insulto devia ficar no esquadro. Naquela manhã, deixou-a como estava.

As verificações terminaram fora de ordem. O gramado antes dos portões, o muro dos Patels antes da alameda, a sequência quebrada e remontada de modo errado, como um homem distribuindo cartas com a cabeça no placar. Brian constatou em si a falha como constataria um suporte deslocado, registrou-a para correção e entrou pelo próprio caminho da frente.

Um carrinho de bebê atravessava seu portão.

Estava estacionado de lado, entalado entre o pilar do portão e o ligustro, com o freio acionado. Ele conhecia o carrinho: azul-marinho, lama nas rodas traseiras, uma abelha de plástico giratória presa à barra transversal. Conhecia também a mulher parada atrás dele, os braços cruzados sobre a alça, grávida de sete meses e fincada como uma cofragem. Jill Bowman. Número 11. Morava na rua desde a primavera retrasada e aprendera tudo sobre as calhas, os aniversários e a pressão arterial de cada um. Na mão livre, segurava um maço de papéis grampeados, na vertical. Brian reconheceu a tipografia do portal do conselho a 20 pés de distância.

“Bom dia, Hale”, disse ela. “Então o senhor viu o quadro. Está oito minutos atrasado.”

“O carrinho está no meu portão.”

“Está. Essa é a ideia.” Ela ergueu a impressão. “Cláusula 19. Aparece duas vezes nas letras miúdas deles e não aparece em lugar nenhum que eu consiga encontrar. Não há cópia do Pacto na biblioteca, não há nenhuma no portal, e a que deveria ficar na prateleira do Salão Compacto está desaparecida desde antes de nos mudarmos. O senhor deve saber o que ela diz.”

“Assunto do comitê”, disse Brian. “Leve-o ao comitê.”

“O comitê é Jeffrey Lowery e um martelo. Estou perguntando ao homem que cita essa coisa para quem põe as lixeiras para fora antes da hora.”

“Há um procedimento.”

“Que maravilha. Onde está escrito?”

Ele olhou para o carrinho. A abelha girava devagar no prendedor, a única coisa em movimento na rua. “Sua calha dos fundos cedeu na emenda”, disse. “Consigo ouvir quando chove. Vou aí na terça.”

“O senhor pode consertar a calha e responder à pergunta. Uma coisa não exclui a outra.” Ela não erguera a voz; estava, Brian percebeu, preparada para ficar ali até a hora de levar as crianças à escola e talvez até o parto. “Hale. O que é a Cláusula 19?”

Passaram-se sessenta segundos, ou algo próximo disso. Mais tarde, ele não saberia dizer por que a recitação lhe saíra. Talvez fossem as tachinhas, a plastificação ou o simples fato de engenharia de que ela bloqueara o portão e o dia não conseguia passar por ela. Brian recitou de modo seco e rápido, com as palavras exatas e no tom que usaria para informar a leitura de um medidor.

“Cláusula 19. Em qualquer dissolução do Pacto, o interesse de propriedade perfeita sobre os terrenos comuns será distribuído por voto de equidade, correspondendo um voto a cada hora não resgatada lançada no livro-razão patrimonial e creditada ao membro ali nomeado. As horas resgatadas antes de contar são extintas. Para contar, toma-se por base o livro-razão tal como mantido.”

Viu o rosto dela mudar antes de terminar a segunda frase. Era rápida; isso ele lhe reconhecia. Ela baixou os olhos para a impressão, depois tornou a olhar para ele e, quando voltou a falar, o brilho desaparecera de sua voz, deixando em seu lugar algo mais cauteloso.

“Horas”, disse. “Os votos são horas. Alguém vem registrando horas.”

“É uma disposição antiga.”

“Existe um livro-razão.” Ela fez as contas em voz alta, com cuidado, como quem caminha sobre o gelo. “A rua decide quem é dono da rua com base no que estiver escrito num livro, e todo mundo diz que o homem que o guarda é o senhor.”

“A rua diz muita coisa.”

“Quantas horas há nele? A quem pertencem?”

Ali estava. A pergunta sob a pergunta, aquela que a rua inteira concordara, por algum tratado que ninguém assinara, jamais lhe fazer. Ele ouviu o restante se aproximar como se ouve um caminhão antes que dobre a esquina: décadas de favores arrancadas para fora e contadas, nomes lidos em voz alta, páginas manuseadas. As páginas de Diana. Polegares de estranhos.

Brian sentiu um frio percorrê-lo. Nunca erguera a voz uma única vez, mas deixou a temperatura baixar nela.

“O livro não é propriedade do comitê”, disse. “Não pertence ao conselho, não pertence àquela firma e não é da sua conta. Não está à venda e não está disponível para leitura. Agora tire o carrinho, por favor.”

O por favor saiu numa voz que a rua não ouvia desde o funeral. Jill percebeu e, com esforço visível, guardou a pergunta seguinte em vez de gastá-la. Destravou o freio e recuou o carrinho uma jarda exata, e Brian enfim passou pelo próprio portão, pela abelha, e subiu o caminho que assentara em 1989.

“Noventa dias”, disse ela às costas dele. “Esse é o período de liquidação. Está no portal, li o arquivamento inteiro, todas as quarenta páginas, e vou levar esta cláusula impressa à Reunião Geral Anual, mesmo que eu própria tenha de lê-la para que conste em ata. Quer o comitê goste ou não. Quer o senhor goste ou não.”

Ele fechou a porta da frente sobre o fim da frase. Pelo painel de vidro fosco, a silhueta dela permaneceu um momento junto ao portão, depois se curvou sobre o carrinho e se afastou, e a rua voltou a ficar quieta, e o silêncio mudara de patrão.

A chaleira foi ligada porque a chaleira era ligada às 7h15. Uma caneca desceu da prateleira. As outras quatro permaneciam enfileiradas atrás dela, numa fileira que ele não perturbava havia dois anos. Depois entrou o chá e, enquanto a chaleira avançava rumo à fervura, ele ficou no corredor tirando o casaco e parou com um dos braços ainda dentro da manga.

O armário do corredor estava onde sempre estivera, entre os ganchos dos casacos e a escada. Carvalho, laterais de vidro, uma fechadura que ele lubrificava a cada primavera e outono, segundo um cronograma que sobrevivera à própria razão de ser. Na prateleira do meio, com a lombada voltada para fora, repousava um livro-razão do tamanho de uma laje de calçamento: capas de cartão da cor da ardósia molhada, lombada de tecido desbotada no alto, onde quarenta e um anos de mãos haviam enganchado os dedos para puxá-lo dali. O livro permanente. Propriedade do patrimônio, sob a guarda do goleiro. Fazia dezenove anos que Brian era o goleiro.

Não o abria desde que Diana morrera.

Terminou de tirar o casaco. Pendurou-o no segundo gancho, pegou a pequena chave na gaveta da mesa do corredor e abriu o armário, tudo na mesma sequência sem pressa que usaria para sangrar um radiador. A porta de vidro se abriu. O cheiro saiu ao encontro dele: papel, poeira, o ferro tênue da tinta antiga. A mão pousou sobre a capa e ali ficou espalmada, o polegar contra a lombada, o cartão frio e ligeiramente áspero sob a palma, como a face inferior de um peitoril.

Erga-o, então. Um movimento de dobradiça. Brian fizera aquele mesmo movimento dez mil vezes: em diários de obra, em comprovantes de entrega, naquele livro, naquela prateleira, enquanto ela, sentada à mesa da cozinha, perguntava em voz alta quem finalmente acertara com os Lowery a dívida do andaime.

A mão permaneceu espalmada.

Pela lateral de vidro do armário, onde a luz do painel da porta incidia em ângulo, a borda de uma página sobressaía um pouco do bloco, e ao longo dela corria uma linha manuscrita. Tinta de galha de ferro, desbotada até ficar marrom, letras verticais, uniformes e ligeiramente estreitas, letras de professora, e sob uma palavra — um nome que ele não conseguia ler e não tentou — havia um único sublinhado traçado com régua. Ela sublinhava nomes, nunca palavras. Brian a observara fazer aquilo em mil noites, com a régua guardada no livro para esse fim, porque uma obrigação pertencia a uma pessoa e a pessoa merecia a tinta.

A chaleira desligou com um estalo na cozinha.

Brian permaneceu com a palma sobre a capa e compreendeu a manhã nos únicos termos de que dispunha, que eram procedimentais. A folha plastificada transformava o livro em prova. A cláusula o transformava em registro. Noventa dias tornavam o assunto urgente, a mulher no portão o tornava público e, em algum lugar, num escritório ameixa e creme, uma firma que pensara na chuva já pensara em tudo aquilo. Já não se podia proteger o livro mantendo-o fechado; fechado era agora um defeito, como é defeito uma porta corta-fogo trancada. O que quer que estivesse escrito nele tornara-se assunto da rua. Brian sabia o que havia ali, hora por hora; fizera ele próprio metade dos lançamentos. Cada coluna, cada nome na caligrafia estreita dela. E o goleiro, o encarregado designado para apresentá-lo, examiná-lo e responder por ele, era um homem que não conseguia erguer a capa do livro na prateleira central do próprio armário do corredor.

Tirou a mão do livro. Fechou a porta de vidro, girou a chave e então, em vez de devolvê-la à gaveta da mesa do corredor, guardou-a no bolso da calça, onde a sentiu acomodar-se contra as moedas soltas como um fato.

O chá foi preparado segundo as especificações e bebido de pé, junto à janela da cozinha, no ponto onde a corrente de ar entrava pela moldura que ele vivia pretendendo vedar de novo e nunca vedaria, porque Diana gostava da corrente; dizia que uma cozinha devia lembrar às pessoas que o tempo existia. No verso de um envelope sobre o balcão, escrito a lápis em suas próprias maiúsculas exatas, estava o número de referência do aviso, HV/DIS/2241, copiado ao passar por ali naquela manhã, entre uma verificação e outra, antes de se permitir pensar no motivo. O envelope aguardava uma resposta que ele ainda não decidira dar. O portal do conselho aguardava. Jill Bowman, presumivelmente, aguardava, embora não desse a impressão de ser boa nisso.

Um movimento no gramado chamou sua atenção. Uma van ameixa e creme parara diante da entrada da ferradura, e dois homens de casaco de lã polar retiravam da traseira um poste e uma placa. Número 9. Os Chandler haviam ido para a casa da filha em Pontefract em setembro, e Sheila Mott assumira a locação temporária enquanto a casa era anunciada; Brian verificava as calhas desde que os Chandler tinham partido, sem que ninguém pedisse. Os homens encostaram o poste na cerca, e um deles o manteve firme enquanto o outro brandia a marreta, e o som chegou à cozinha meio tempo depois do golpe, como acontece com o trovão.

A décima segunda. Ele contou, como contava todas as manhãs, e não disse nada em voz alta.

A placa ficou três graus fora da vertical. Brian via o desvio com exatidão da janela, evidente contra a linha da cerca, o tipo de coisa que um polegar e uma única olhada corrigiriam. Os homens voltaram para a van e ficaram sentados com o motor ligado, preenchendo papéis apoiados no painel.

Brian permaneceu onde estava. Bebeu o chá até o fim, lavou a caneca, virou-a de boca para baixo no escorredor, no lugar destinado a uma caneca, e a placa inclinada continuou no gramado sob a luz que ganhava força, sem ser endireitada, enquanto o goleiro responsável por O livro permanente permanecia à janela, com a chave do armário no bolso, e a deixava pendurada daquele jeito.